Autobiografia

Henrique Neto Biografia

Autobiografia Breve


Nasci em Lisboa no Beco do Carrasco, Poço dos Negros, filho de uma família operária da Marinha Grande, durante um curto período em que o meu pai, depois de fazer o serviço militar, foi polícia na esquadra da rua da Boavista. Quando tinha três anos a família voltou para a Marinha Grande, onde aprendi, com quatro ou cinco anos, a ler e a escrever na escola - então chamada da Candidinha -, que não era mais do que a habitação de duas irmãs que se dedicavam ao ensino, a que hoje chamaríamos pré-escolar.

No final da 3ª classe da instrução primária voltei para Lisboa, porque o meu pai encontrou emprego, com outros membros da família, uns primos mais velhos, numa  fábrica de vidro que ficava na Avenida 24 de Julho e produzia lâmpadas de iluminação. Em Lisboa, numa escola da rua das Gaivotas, terminei a instrução primária com distinção, tendo-me a minha família permitido que escolhesse entre um curso Comercial e um Curso Industrial. Escolhi a escola industrial Fonseca Benevides, onde terminei o segundo ano do curso de serralharia.

Os meus pais voltaram para a sua terra e eu, depois de uns meses a viver em Lisboa em casa de uma tia, também voltei para a Marinha Grande no final do ano lectivo. Fui então trabalhar para uma empresa de caixotaria de um tio e padrinho, tendo continuado o curso industrial em regime nocturno, agora no terceiro ano de um curso de vidraria. Ali terminei o 5º ano, tendo nessa altura conseguido, com outros colegas, convencer o director da escola e o professor de desenho que nos fosse leccionado desenho de máquinas, em vez de desenho artístico do vidro. Isso porque a motivação da maioria dos jovens era o ingresso na indústria de moldes, dado o reconhecimento do maior dinamismo deste sector na economia da terra.

Com 16 anos, com a ajuda do meu padrinho e patrão, consegui finalmente um emprego na indústria de moldes, primeiro como torneiro, depois como serralheiro de bancada e, finalmente,  como desenhador. Esta evolução foi possível devido aos dois anos passados na Fonseca Benevides, e aos três anos de ensino benevolente de desenho de máquinas no Curso de Vidraria da Marinha Grande.

Certamente influenciado pelo ambiente político vivido na Marinha Grande, e por uma parte da família que tinha participado na Revolução do 18 de Janeiro, aderi com quinze anos ao Mud Juvenil. Nessa fase, até ter saído para o serviço militar, não fui preso, como foram muitos outros jovens da minha geração, talvez porque tive o privilégio de, tendo em casa uma máquina de escrever e uma máquina de copiografia por stencil – uma espécie de tipografia clandestina -, isso me obrigar a uma maior prudência e discrição. Nesse tempo lia muito, hábito que me ficou destes os tempos da Candidinha, e foi aí que comecei a produzir  os meus primeiros textos políticos, atividade que nunca mais deixei, até hoje.

Após o serviço militar de infantaria passado em Mafra, Tavira e Leiria, voltei para continuar a trabalhar na empresa de moldes Aníbal H. Abrantes, de onde saí para ser chefe de projecto numa nova empresa fundada na área do Porto, onde estive durante cerca de um ano. A partir daí iniciei uma fase profissional de entrada e saída da empresa Aníbal H. Abrantes, onde percorri os cargos de direcção de projecto, direcção comercial e direcção geral da empresa. Era director geral em 1975, quando, com mais três colegas quadros da empresa - esta tinha sido recentemente nacionalizada – fundámos a Iberomoldes, como empresa comercial, tendo a seguir enveredado pela produção de moldes através da aquisição de uma outra empresa que estava em situação financeira difícil.

Nessa época a indústria de moldes atravessava uma grande crise,  resultante da anterior crise petrolífera e da Revolução do 25 de Abril, na medida em que, compreensivelmente, os clientes norte-americanos e europeus não gostavam de encomendar moldes para produzir os seus novos produtos a empresas de um país que então vivia uma revolução. Apesar disso, o sector comercial da Iberomoldes teve o engenho de convencer muitos clientes norte americanos de que a revolução não prejudicaria a execução das encomenda, o que permitiu, através do subcontrato das encomendas recebidas, salvar da falência algumas empresas da Marinha Grande.

Passada essa fase difícil a nova empresa Iberomoldes tornou-se numa empresa líder do sector, principalmente através da inovação e da procura permanente da qualidade, do progresso tecnológico e da diversificação na cadeia de valor. Neste processo de quarenta anos, foram criadas empresas especializadas em áreas como a electroerosão, o polimento dos moldes, o fabrico de estruturas para moldes, a engenharia de desenvolvimento, prototipagem e validação de novos produtos, etc. No campo das tecnologias a Iberomoldes continuou a tradição da empresa Aníbal H. Abrantes de introduzir novas tecnologias em Portugal, tendo sido uma das primeiras empresas da Europa a adoptar a computação gráfica tridimensional e o fabrico integrado por computador. Finalmente, a empresa associou-se a uma empresa alemã para fundar em Pombal uma empresa produtora de sistemas complexos destinados ao sector automóvel, que é hoje uma das melhores empresas europeias da sua área.

Depois da fundação da Iberomoldes deixei a política activa para me dedicar à empresa. Antes, tinha sido militante do PCP entre 1968 e 1975, tinha participado na campanha de Humberto Delgado em 1958, em 1969 fui candidato às eleições legislativas pelo Distrito de Leiria da Oposição Democrática, e participei - sob a liderança de dois grandes democratas e amigos, José Henriques Vareda e Vasco da Gama Fernandes -  em todas as actividades, reuniões e posições politicas daquela época, em que o Distrito de Leiria teve uma posição de alguma liderança organizativa no plano nacional. Nesse período participei ainda na criação, em 15 de Junho de 1969, da Plataforma de São Pedro de Moel, e em 1973 no III congresso da Oposição Democrática,  em Aveiro. Recordo que nesse Congresso instalámos uma caravana em frente ao teatro em que ele decorria, com o objectivo de distribuir documentação política e vender livros, apesar dos previsíveis problemas  que isso implicava com a polícia política.

Em 1993, convidado pelo então Secretario Geral do PS, Jorge Sampaio, aderi ao PS, interrompendo um longo jejum de actividade politica activa, ainda que nunca tivesse deixado de escrever e de publicar textos de intervenção política. Depois de ter participado, com entusiasmo, nos Estados Gerais para Uma Nova Maioria, apoiei, com igual entusiasmo, António Guterres nas eleições de 1995, tendo apresentado duas moções de Estratégia, “Portugal Primeiro” e “Pensar Portugal”, nos XII e XIII congressos do Partido Socialista, em que já defendia vias diferentes das escolhidas pela direcção do partido.

Como empresário coloquei sempre na primeira linha das minhas preocupações o progresso da industria nacional, num processo contínuo de inovação e de demonstração de novas soluções tecnológicas, mas também comerciais e organizativas, além da formação profissional dos colaboradores para o que foi criada uma escola, através de uma ACE- Agrupamento Complementar de Empresas, com empresas do grupo e exteriores ao grupo.

O grupo empresarial que tínhamos criado em 1975 era, em 2001, constituído por 14 empresas (uma das quais no Brasil) e empregava cerca de 1600 pessoas. A maioria da produção do grupo, moldes, ferramentas especiais, estruturas para moldes, sistemas para o sector automóvel e serviços  de engenharia e de prototipagem de novos produtos, destinava-se à exportação para grandes empresas internacionais.

Como empresário, a minha participação política e cívica, nomeadamente através da publicação de livros e de centenas de textos, teve como objectivo não só aproveitar a minha experiência da indústria nacional, mas também – o que, porventura, era o mais importante - a minha experiência internacional, para defender novas ideias para o  progresso económico de Portugal. Por isso, também nunca deixei condenar muitos erros  e muitas decisões dos diversos governos, que considerei prejudiciais ao nosso Pais.

Já tinha sido essa mesma intenção o que me tinha feito voltar à actividade política em 1995, com algum prejuízo da minha actividade como empresário, para participar como deputado durante quatro anos nos trabalhos da Assembleia da República. Se não gostei da experiência, por razões que já expliquei algumas vezes, também é verdade que ela me permitiu ver com maior clareza as insuficiências e os vícios do nosso sistema político. E também propor, em muitos  textos que depois escrevi, diversas formas de ultrapassar as nossas principais dificuldades nacionais, numa interação - a meu ver virtuosa - entre a política e a economia.

Sou casado, tenho três filhos e quatro netos. A minha família foi sempre, em todos os momentos, muito importante para mim. Como muitas outras famílias portuguesas, tenho um filho e dois netos a viver na Suíça, e uma filha a fazer investigação na Irlanda. Também é por eles, e pelo futuro que desejo para eles, que me candidato.

Henrique Neto